8.3.2 | Padronização de pavimentos e mobiliário público
A importância da padronização de pavimentos e do mobiliário público prende-se com a possibilidade de simplificar a leitura do espaço, integrando-o para que a sua existência seja neutra, não gere “ruído” (mobiliário) mas seja funcional, não interferindo com o espaço público ou com o edificado. Referimos como exemplo o processo de reabilitação do centro histórico de Barcelona, onde o cuidado com os pavimentos (lisos) e a padronização dos seus materiais, através de perfis tipo, adequado a cada rua. Também em Barcelona o mobiliário público do centro histórico foi padronizado e introduzido utilizando materiais neutros, sem criar barreiras visuais15.

 

 

8.3.2.1 | Padronização de Pavimentos
A principal função de um pavimento, numa zona pedonal ou mista, deve ser a qualidade e a segurança que este transmite a quem o percorre.
Deverão ser definidos tipos de pavimentos a implementar no futuro: Pavimento de Praças e Largos, pavimento de vias mistas de circulação automóvel e pedonal, e pavimento das vias pedonais e de acesso condicionado.
Evitar calçadas de pedra pequena, tipo calçadinha de vidraço, à portuguesa, ou de cubos de granito, devido ao desconforto que provoca ao andar, assim como regularizar, substituindo algumas calçadas de laje de granito, demasiado irregular, como no Largo da Porta do Soar.
Todos os pavimentos devem conter uma calha de infra-estruturas, de fácil acesso e ligação ao edificado.

 

 

8.3.2.2 | Padronização de Mobiliário Público
O mobiliário público16 do Centro Histórico de Viseu apresenta várias épocas e modelos. Dentro deste tipo de equipamento, a iluminação tem particular interesse na valorização de edifícios e factos urbanos de relevo.
A iluminação deverá seguir os níveis de conforto e de segurança, jogando em quatro níveis de iluminação, geral, baixa, no pavimento e pontos focais para destaque de elementos particulares, edifícios, largos, fontes, portas, arcos, árvores, comércio, etc.
Neste contexto a publicidade é um problema de difícil resolução, porque se relaciona com múltiplos particulares, comerciantes, bares, restaurantes, etc., cada um com uma especificidade e um design, uma ideia, e são de épocas diferentes.
Pensa-se que só existem duas soluções. Remover toda a actual publicidade, normalizando-a e indo implementando-a nas novas solicitações, jogando com o mobiliário de época mais antiga (existente), acentuando o carácter histórico do antigo, ou aceitar o existente, aproveitando as remodelações do edificado para normalizar a publicidade, introduzindo o conceito da imagem de contemporaneidade desejada17.
Contudo, no casco medieval, existe um comércio actual com um carácter próprio de uma região, nomeadamente na Rua Direita. Mesmo o viajante culto não se choca com o caldo de néones publicitários que iluminam a rua, anacronicamente, transmitindo uma ideia de segurança (luz) e de contemporaneidade (orgulho do momento presente). Pelo purismo de algumas reabilitações históricas, do pós guerra europeu à actualidade portuguesa, no seu melhor, como no caso do Centro Histórico de Guimarães, talvez se tenha ido demasiado longe, recriando uma imagem artificial, de um passado remoto e inexistente, que no entanto corresponde ao que o turista quer ver, quando visita um centro histórico, com características do passado.
Como já se afirmou, o Centro Histórico de Viseu, com todos os seus problemas de acessibilidade, pavimentos, estacionamento e envelhecimento do edificado, funciona. Não se trata de uma área abandonada, e cremos que toda a obra a ser feita deverá ser no sentido de ajudar os residentes e os que lá trabalham, facilitando a vida e não condicionando no sentido de um eventual futuro melhor, o turismo, que não é a principal actividade/função do Centro Histórico.
Aqui, e em termos conceptuais, está a grande questão. Que futuro possível, para uma zona condicionada pela sua própria morfologia, património e história, onde as populações residentes, e quem lá trabalha, têm de fazer um esforço acrescentado, para manter o seu quotidiano.

A desejada imagem da cidade histórica tem que conviver com outro tipo de mobiliário público, desde bancos de descanso e contemplação, ao caixote do lixo, papeleiras de recolha de lixo, vidrões, instalações sanitárias, pontos de informação, etc., que se devem integrar na paisagem urbana sem que se transformem em mais barreiras arquitectónicas ou de barreiras visuais, onde a estética, o design, a utilização de materiais neutros, reflectivos ou transparentes, devem ser aplicados para que estes elementos não interfiram com a leitura do edificado antigo e monumental, mas que também contribuam para um maior bem-estar dos residentes.

 


15 AA. VV."Barcelona Espacio Público", Ajuntament de Barcelona, Regidoria d`Edicions i Publicacions, Barcelona, 1993. ACEBILLO, Josep; BOHIGAS, Oriol; CECILIA, Renato; DONIN, Gianpiero; SOLÀ MORALES, Ignasi de; TULLIO, M. Cristina; ZAGARI, Franco, "Spazi Pubblici Contemporanei. Innovazione e Identità a Barcelona e in Catalogna", Quaderni di Au, Editrice in Asa, Roma, 1989.

16 O mobiliário público enquanto elemento de suporte de vida – equipamento – no espaço público urbano, aparece com a cidade, desenvolve-se com o aparecimento dos primeiros parques e jardins privados, é transposto para o espaço público europeu com o aparecimento dos primeiros parques urbanos do século XVIII e XIX. Os passeios, os alinhamentos de árvores, quiosques, fontes, lagos, pavilhões, colunas de afixação de informação, os cestos de papéis, mictórios, bancos, candeeiros, gradeamentos artísticos, grelhas de protecção de árvores, grelhas de saneamentos, bancos, candeeiros, numeração dos edifícios, etc. Este tipo de mobiliário, com uma implementação longa no tempo pela sua duração, marca a imagem pública da cidade, caracterizando-a e identificando-a. Se lhe juntar mais algum mobiliário como a coluna “Morris”, as Fontes “Wallace”, a cabina telefónica inglesa K2, de 1924, de Sir Giles Gilbert Scott, e os marcos do correio ingleses, fica completa a imagem do mobiliário público internacional até à segunda grande guerra. Em 1955, depois da guerra é fundada a empresa Jean-Claude Decaux, JC Decaux, que vai privatizar um serviço tradicionalmente público, produzindo um mobiliário específico, caracterizado com uma imagem forte de raiz, inicial, historicista, e se implementa a nível internacional, e em Portugal a partir dos anos 80. As experiências mais recentes em Espanha, nomeadamente as grandes obras de reabilitação de Barcelona, coordenadas por Oriol Bohigas, permitiram uma experimentação de novos modelos de mobiliário público, cujo impacto afectou o tradicional mercado de mobiliário público, tendo uma grande influência a nível europeu, introduzindo no mercado numeroso mobiliário, transposto e adaptado para Portugal, onde acontecimentos como a Expo 98, as Cidades da Cultura, e o programa Polis, lhe deram continuidade.

17 Entenda-se, criar regras e exemplos tipo para a publicidade comercial e a partir dai obrigar a que as propostas novas a apresentar à CMV sejam coincidentes com essas regras, que as lojas que façam obras tenham que mudar a publicidade para cumprir essas regras e que a publicidade seja removida quando as lojas encerrem definitivamente.

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