"A cidade é portanto um lugar artificial de história no qual cada época – todas as sociedades acabam por se diversificar da que as precedera – tenta, mediante a representação de si própria nos monumentos arquitectónicos, o impossível: assinalar aquele tempo determinado, para além das necessidades e dos motivos contingentes porque os edifícios foram construídos"1

 

 

8.1 | Os Centros Históricos e o Espaço Público

 

Reconhecendo o estado português que existiam problemas urbanísticos graves em todo o território, aceitou-se o mal como um processo político e social necessário. Assim a distopia2 promovida dos anos 80 foi encarada como um facto e partiu-se para a utopia da distopia, por outras palavras procurou-se a ilha perdida dentro do caos urbanístico – Os Centros Históricos e o Espaço Público.

 

 

8.1.1 |O Processo de Pedonização dos Centros Históricos

 

Começa a haver alguma preocupação com o espaço público, o que leva a acções visando a pedonização de alguns trechos de cidade, nos quais conflitos entre circulação automóvel e circulação pedonal levam ao encerramento pontual de vias ao trânsito automóvel3.
Nos anos 90 começa a reabilitação de fundo no espaço público, sendo progressivamente introduzidos, em Portugal, novos conceitos e experiências, que vão do fecho e pedonização de vias de trânsito automóvel à reabilitação de espaços existentes, e à construção de novos espaços públicos urbanos.
Atendendo inicialmente às novas necessidades funcionais das zonas urbanas, aqueles espaços evoluem no final dos anos 90 para um conceito lúdico-cultural–funcional, em que são introduzidos e pensados novos conceitos e necessidades, porque as populações não se satisfazem com o simples uso de um espaço funcional disponível, mas esperam mais, que este as surpreenda, interagindo, educando, enfim as encante, proporcionando-lhes equipamentos, entretenimento, diversão, cultura – movimento – que é factor que mais caracteriza os tempos da contemporaneidade dos dias de hoje4.
O espaço público assume hoje um requinte, uma depuração estética e tecnológica que chama, de novo, a atenção sobre si, atraindo a publicidade e a cinematografia, passando a palco e pano de fundo para acções de propaganda, divulgação e entretenimento, enfim, ao que sempre as caracterizou. Não é mais o palco das revoluções e manifestações dos anos 70 e 80, é o espaço requintado da sala de visitas ou o escritório tecnológico interactivo, onde se pode trabalhar, enviar um e-mail, assistir a uma ópera, um desfile de moda, um filme, um espectáculo multimédia, ou simplesmente brincar a mover os candeeiros5.
Assim a seguir ao processo de pedonização dos centros históricos, que se desenvolveu em Portugal sobretudo a partir dos anos 80, generalizado a partir dos anos 90 do século XX, década das infra-estruturas urbanas, das vias e dos equipamentos públicos, seguiu-se o programa dos parques, das praças e zonas pedonais. A primeira década de 2000 ficará, em Portugal, como a década do espaço público.


1 Carlos Aymonino, "O Significado das Cidades", Editorial Presença, Lisboa, 1984.

2 Imagem do futuro horrível no século XX. Oposto de Utopia.

3 Assim obras como a da baixa de Coimbra e de Lisboa, zona central de Viseu, centro histórico de Guimarães, Braga, Porto (Santa Catarina), centro histórico de Viana do Castelo, Figueira da Foz, Albufeira, Armação de Pêra, etc., entre outras, são acções que se vão desenrolar, em tempo, a partir dos anos 70 até aos dias de hoje (2010).

4 As experiências do espaço público no EUA dos anos 60, e da Europa nos anos 70 evoluíram nesse sentido. A escultura salta do pedestal e envolve-se com o cidadão provocando-o, orientando-o, interagindo e provocando-lhe sensações. O mobiliário público confunde-se com a escultura, a publicidade torna-se comunicação e o próprio chão que se pisa vai-se transformando de acordo com as necessidades, subindo, descendo, com piso mole, duro, pista para patins ou bicicletas, relva, areia, etc. Outras necessidades menos evidentes quando se pensa em termos de espaço público são desenvolvidas como prioridades. Estacionamento automóvel à superfície e coberto, transportes públicos, um sem número de mobiliário público de apoio, passeios rolantes, escadas mecânicas, elevadores, instalações sanitárias, quiosques, balcões de venda, cabinas telefónicas, bancos, candeeiros, sinalização, etc., são objecto de tratamento estético depurado. Os espaços públicos formais são redesenhados, pavimentados, arranjados, ajardinados, para que à expectativa do utente corresponda uma imagem de Europa, à qual tanto se deseja pertencer. Os espaços das crianças, os espaços dos adultos os espaços dos idosos são pensados de acordo com as necessidades. Dedica-se grande atenção aos equipamentos públicos e ao espaço que os cerca, sobretudo aos espaços verdes, parques e jardins urbanos, nas suas respectivas escalas de quarteirão, bairro, parte de cidade, cidade e espaço metropolitano, para os grandes acontecimentos de massas.

5 Referimo-nos à Praça de Schouwburg, em Roterdão, Schouwburgplein, Holanda, onde a equipa West 8 liderada por Adriaan H. Geuze (1960-) projectou e reabilitou entre 1990 – 1996 um espaço público existente, introduzindo quatro torres hidráulicas de iluminação, com 35 metros de altura, que se movem a cada hora, e é possível ao utilizador move-las de posição introduzindo uma moeda. In, BROTO, Carles “Urbanism”, Arian Mostaedi, Links International, Barcelona.

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